A pequenez do CDS<br> e a grandeza das FARC

Miguel Urbano Rodrigues
A exposição e venda da revista Resistência no stand colombiano da Festa do Avante! preocuparam a direcção do CDS. Foi tamanha a indignação no partido de Ribeiro e Castro & Portas que o seu grupo parlamentar levantou a questão na Assembleia da República para acusar o Partido Comunista Português de cumplicidade com uma «organização terrorista internacional». Logo alguns colunistas da imprensa escrita uniram as vozes ao brado de alarme saído de São Bento e vieram a público solidarizar-se com o protesto. A algazarra levantada confirmou o óbvio: a direita portuguesa não consegue romper com um pensamento cavernícola.
Perante a desinformação existente, é útil esclarecer que a revista Resistência, órgão do Estado-maior Central das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército Popular, chega a dezenas de países e tem sido vendida em festas anteriores do Avante!
Lamentavelmente, milhões de portugueses pouco ou nada sabem acerca das FARC-EP.

As guerrilhas colombianas surgiram na Cordilheira após a matança do Bogotazo em 1948, evocada por Garcia Marquez nas suas memórias. Numa delas, um jovem camponês, Manuel Marulanda, começou a ganhar prestígio quando recusou anos depois a amnistia decretada pelo general – ditador Rojas Pinilla. Manteve-se na luta com um punhado de companheiros. Estudou marxismo e aderiu então ao Partido Comunista. Quando o presidente Leon Valência mobilizou 16 000 homens para eliminar o núcleo de combatentes de Marquetália, o nome de Marulanda adquiriu ressonância continental. Os guerrilheiros resistiram e romperam o cerco numa saga épica. Eram apenas 48.
Essa foi a origem das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Transcorridos 42 anos, as FARC são hoje um Exército Popular de 18 000 homens – segundo estimativa do governo – que combate em 60 frentes com comandos diferenciados. O principal estratego é o comandante Jorge Briceño, El Mono Jojoy. Um Estado-maior Central é responsável pela condução da luta.
Somente no Vietname se encontra como precedente algo comparável ao agigantamento da guerrilha das FARC. Inicialmente permaneceu ligada ao Partido Comunista Colombiano, mas após o assassínio de 4000 dirigentes e quadros da União Patriótica, que actuavam na legalidade, as FARC-EP tornaram-se uma organização político-militar autónoma, que se assume como partido marxista-leninista.
O fracasso dos esforços para destruir as FARC pelas armas levou o presidente Pastrana a negociar e aprovar a criação de uma Zona Desmilitarizada na Região Amazónica, cobrindo uma área superior à de Portugal.
A recusa pelo governo de respeitar a própria plataforma aceite por ele como Agenda para a Paz, conduziu – aliás por iniciativa de Pastrana – à retomada da guerra.

Terrorismo de Estado

O actual presidente, Álvaro Uribe comprometeu-se a destruir a organização e, com o apoio militar e financeiro de Washington, 30 000 homens de tropas de elite (as Forças Armadas colombianas contam com quase 300 000 homens e são as mais poderosas da América Latina) montou uma estratégia de cerco nos departamentos do Meta e do Caquetá no âmbito do Plano Patriota, integrado no Plano Colômbia, concebido e redigido nos EUA.
Não obstante o Exército dispor de armas que o Pentágono somente fornece a Israel, o ambicioso projecto fracassou, tal como os anteriores. Nos últimos 12 meses as FARC infligiram pesadas perdas às tropas que as atacam. Em Agosto, os pedidos de demissão do general Ospina e de meia dúzia de generais foram interpretados por observadores internacionais como grave derrota da política de «segurança total» de Uribe, o mais fiel aliado dos EUA no Continente.
Os sequestros no estrangeiro de dois comandantes das FARC de grande prestígio – Simon Trinidad no Equador, e Rodrigo Granda na Venezuela – foram aliás criticados em Bogotá pela oposição legal como actos de terrorismo de Estado praticados por um governo que insiste em se apresentar como um campeão na luta contra o terrorismo. O primeiro, raptado em Quito com a participação da CIA, foi extraditado para os EUA como narcotraficante, acusação ridícula porque Simon Trinidad, doutorado em Harvard e membro de uma família riquíssima, era banqueiro quando aderiu às FARC. Rodrigo Granda – o responsável pelas relações internacionais das FARC – foi sequestrado em pleno centro de Caracas por polícias colombianos, em acto de pirataria que abalou as relações com a Venezuela.
Os dirigentes do CDS que hoje acusam o PCP de solidariedade com o terrorismo têm fraca memória ou são muito ignorantes.
Foi após insistente pressão dos EUA que a União Europeia colocou as FARC na lista de organizações terroristas, exigência que a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu se tinham negado a aceitar repetidas vezes.
Cabe recordar que há cinco anos, durante uma cerimónia em La Macarena, na selva amazónica, durante a entrega à Cruz Vermelha Internacional de militares colombianos libertados pelas FARC, os representantes do governo de Bogotá se dirigiam respeitosamente aos comandantes da organização revolucionária. Eu estava ali e vi os embaixadores ocidentais da Comissão Facilitadora a rodear Manuel Marulanda, tratando-o com a maior deferência.

Calúnia orquestrada pelos EUA

Foi por exigência de Washington que a trégua findou com a ocupação da Zona Desmilitarizada. E que aconteceu? Num golpe de teatro, o governo colombiano pôs a prémio as cabeças de Marulanda e dos demais membros do Secretariado das FARC, oferecendo milhões de dólares pela captura de revolucionários que passou a designar como assassinos e bandoleiros.
Para a legenda negra que envolve o nome das FARC na Europa muito contribue aliás a campanha de âmbito mundial que as apresenta como organização ligada ao narcotráfico.
A calúnia corre pelo mundo, funciona.
Como principiou?
Por iniciativa de um ex-embaixador dos EUA em Bogotá, Louis Stamb, o autor do slogan que, ao adquirir credibilidade, tem dificultado muito a solidariedade internacionalista com as FARC.
Stamb, homem da CIA, numa reunião no Pentágono, quando se discutia a necessidade de desacreditar as FARC, bateu com o punho na mesa e propôs:
- Vamos passar a chamar às FARC «a guerrilha do narcotráfico!»
Nas semanas que passei nas selvas do Caquetá e na cidade de San Vicente del Caguan tive a oportunidade de verificar que enquanto as FARC foram o poder real na Zona Desmilitarizada o consumo de droga era ali proibido.
Enquanto fabrica acusações falsas contra os revolucionários das FARC, o presidente Uribe (cúmplice do narcotráfico quando governador de Antioquia) amnistia e reintegra, com prebendas, na sociedade colombiana milhares de paramilitares, íntimos aliados dos cartéis da droga.
Os senhoritos do CDS receberam do PCP a resposta que mereciam.
Pessoalmente, sinto orgulho em ter artigos publicados na revista Resistência cuja presença na Festa do «Avante!», no stand do PC Colombiano, desencadeou o seu berreiro reaccionário.
Uma certeza: os nomes de Marulanda e dos comandantes das FARC serão recordados pelo tempo adiante como heróis da América Latina enquanto os dos dirigentes do CDS vão desaparecer na poeira da história.


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