A pequenez do CDS<br> e a grandeza das FARC
A exposição e venda da revista Resistência no stand colombiano da Festa do Avante! preocuparam a direcção do CDS. Foi tamanha a indignação no partido de Ribeiro e Castro & Portas que o seu grupo parlamentar levantou a questão na Assembleia da República para acusar o Partido Comunista Português de cumplicidade com uma «organização terrorista internacional».
Logo alguns colunistas da imprensa escrita uniram as vozes ao brado de alarme saído de São Bento e vieram a público solidarizar-se com o protesto.
A algazarra levantada confirmou o óbvio: a direita portuguesa não consegue romper com um pensamento cavernícola.
Perante a desinformação existente, é útil esclarecer que a revista Resistência, órgão do Estado-maior Central das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército Popular, chega a dezenas de países e tem sido vendida em festas anteriores do Avante!
Lamentavelmente, milhões de portugueses pouco ou nada sabem acerca das FARC-EP.
As guerrilhas colombianas surgiram na Cordilheira após a matança do Bogotazo em 1948, evocada por Garcia Marquez nas suas memórias. Numa delas, um jovem camponês, Manuel Marulanda, começou a ganhar prestígio quando recusou anos depois a amnistia decretada pelo general – ditador Rojas Pinilla. Manteve-se na luta com um punhado de companheiros. Estudou marxismo e aderiu então ao Partido Comunista. Quando o presidente Leon Valência mobilizou 16 000 homens para eliminar o núcleo de combatentes de Marquetália, o nome de Marulanda adquiriu ressonância continental. Os guerrilheiros resistiram e romperam o cerco numa saga épica. Eram apenas 48.
Essa foi a origem das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Transcorridos 42 anos, as FARC são hoje um Exército Popular de 18 000 homens – segundo estimativa do governo – que combate em 60 frentes com comandos diferenciados. O principal estratego é o comandante Jorge Briceño, El Mono Jojoy. Um Estado-maior Central é responsável pela condução da luta.
Somente no Vietname se encontra como precedente algo comparável ao agigantamento da guerrilha das FARC. Inicialmente permaneceu ligada ao Partido Comunista Colombiano, mas após o assassínio de 4000 dirigentes e quadros da União Patriótica, que actuavam na legalidade, as FARC-EP tornaram-se uma organização político-militar autónoma, que se assume como partido marxista-leninista.
O fracasso dos esforços para destruir as FARC pelas armas levou o presidente Pastrana a negociar e aprovar a criação de uma Zona Desmilitarizada na Região Amazónica, cobrindo uma área superior à de Portugal.
A recusa pelo governo de respeitar a própria plataforma aceite por ele como Agenda para a Paz, conduziu – aliás por iniciativa de Pastrana – à retomada da guerra.
Terrorismo de Estado
O actual presidente, Álvaro Uribe comprometeu-se a destruir a organização e, com o apoio militar e financeiro de Washington, 30 000 homens de tropas de elite (as Forças Armadas colombianas contam com quase 300 000 homens e são as mais poderosas da América Latina) montou uma estratégia de cerco nos departamentos do Meta e do Caquetá no âmbito do Plano Patriota, integrado no Plano Colômbia, concebido e redigido nos EUA.
Não obstante o Exército dispor de armas que o Pentágono somente fornece a Israel, o ambicioso projecto fracassou, tal como os anteriores. Nos últimos 12 meses as FARC infligiram pesadas perdas às tropas que as atacam. Em Agosto, os pedidos de demissão do general Ospina e de meia dúzia de generais foram interpretados por observadores internacionais como grave derrota da política de «segurança total» de Uribe, o mais fiel aliado dos EUA no Continente.
Os sequestros no estrangeiro de dois comandantes das FARC de grande prestígio – Simon Trinidad no Equador, e Rodrigo Granda na Venezuela – foram aliás criticados em Bogotá pela oposição legal como actos de terrorismo de Estado praticados por um governo que insiste em se apresentar como um campeão na luta contra o terrorismo. O primeiro, raptado em Quito com a participação da CIA, foi extraditado para os EUA como narcotraficante, acusação ridícula porque Simon Trinidad, doutorado em Harvard e membro de uma família riquíssima, era banqueiro quando aderiu às FARC. Rodrigo Granda – o responsável pelas relações internacionais das FARC – foi sequestrado em pleno centro de Caracas por polícias colombianos, em acto de pirataria que abalou as relações com a Venezuela.
Os dirigentes do CDS que hoje acusam o PCP de solidariedade com o terrorismo têm fraca memória ou são muito ignorantes.
Foi após insistente pressão dos EUA que a União Europeia colocou as FARC na lista de organizações terroristas, exigência que a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu se tinham negado a aceitar repetidas vezes.
Cabe recordar que há cinco anos, durante uma cerimónia em La Macarena, na selva amazónica, durante a entrega à Cruz Vermelha Internacional de militares colombianos libertados pelas FARC, os representantes do governo de Bogotá se dirigiam respeitosamente aos comandantes da organização revolucionária. Eu estava ali e vi os embaixadores ocidentais da Comissão Facilitadora a rodear Manuel Marulanda, tratando-o com a maior deferência.
Calúnia orquestrada pelos EUA
Foi por exigência de Washington que a trégua findou com a ocupação da Zona Desmilitarizada. E que aconteceu? Num golpe de teatro, o governo colombiano pôs a prémio as cabeças de Marulanda e dos demais membros do Secretariado das FARC, oferecendo milhões de dólares pela captura de revolucionários que passou a designar como assassinos e bandoleiros.
Para a legenda negra que envolve o nome das FARC na Europa muito contribue aliás a campanha de âmbito mundial que as apresenta como organização ligada ao narcotráfico.
A calúnia corre pelo mundo, funciona.
Como principiou?
Por iniciativa de um ex-embaixador dos EUA em Bogotá, Louis Stamb, o autor do slogan que, ao adquirir credibilidade, tem dificultado muito a solidariedade internacionalista com as FARC.
Stamb, homem da CIA, numa reunião no Pentágono, quando se discutia a necessidade de desacreditar as FARC, bateu com o punho na mesa e propôs:
- Vamos passar a chamar às FARC «a guerrilha do narcotráfico!»
Nas semanas que passei nas selvas do Caquetá e na cidade de San Vicente del Caguan tive a oportunidade de verificar que enquanto as FARC foram o poder real na Zona Desmilitarizada o consumo de droga era ali proibido.
Enquanto fabrica acusações falsas contra os revolucionários das FARC, o presidente Uribe (cúmplice do narcotráfico quando governador de Antioquia) amnistia e reintegra, com prebendas, na sociedade colombiana milhares de paramilitares, íntimos aliados dos cartéis da droga.
Os senhoritos do CDS receberam do PCP a resposta que mereciam.
Pessoalmente, sinto orgulho em ter artigos publicados na revista Resistência cuja presença na Festa do «Avante!», no stand do PC Colombiano, desencadeou o seu berreiro reaccionário.
Uma certeza: os nomes de Marulanda e dos comandantes das FARC serão recordados pelo tempo adiante como heróis da América Latina enquanto os dos dirigentes do CDS vão desaparecer na poeira da história.
Lamentavelmente, milhões de portugueses pouco ou nada sabem acerca das FARC-EP.
As guerrilhas colombianas surgiram na Cordilheira após a matança do Bogotazo em 1948, evocada por Garcia Marquez nas suas memórias. Numa delas, um jovem camponês, Manuel Marulanda, começou a ganhar prestígio quando recusou anos depois a amnistia decretada pelo general – ditador Rojas Pinilla. Manteve-se na luta com um punhado de companheiros. Estudou marxismo e aderiu então ao Partido Comunista. Quando o presidente Leon Valência mobilizou 16 000 homens para eliminar o núcleo de combatentes de Marquetália, o nome de Marulanda adquiriu ressonância continental. Os guerrilheiros resistiram e romperam o cerco numa saga épica. Eram apenas 48.
Essa foi a origem das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Transcorridos 42 anos, as FARC são hoje um Exército Popular de 18 000 homens – segundo estimativa do governo – que combate em 60 frentes com comandos diferenciados. O principal estratego é o comandante Jorge Briceño, El Mono Jojoy. Um Estado-maior Central é responsável pela condução da luta.
Somente no Vietname se encontra como precedente algo comparável ao agigantamento da guerrilha das FARC. Inicialmente permaneceu ligada ao Partido Comunista Colombiano, mas após o assassínio de 4000 dirigentes e quadros da União Patriótica, que actuavam na legalidade, as FARC-EP tornaram-se uma organização político-militar autónoma, que se assume como partido marxista-leninista.
O fracasso dos esforços para destruir as FARC pelas armas levou o presidente Pastrana a negociar e aprovar a criação de uma Zona Desmilitarizada na Região Amazónica, cobrindo uma área superior à de Portugal.
A recusa pelo governo de respeitar a própria plataforma aceite por ele como Agenda para a Paz, conduziu – aliás por iniciativa de Pastrana – à retomada da guerra.
Terrorismo de Estado
O actual presidente, Álvaro Uribe comprometeu-se a destruir a organização e, com o apoio militar e financeiro de Washington, 30 000 homens de tropas de elite (as Forças Armadas colombianas contam com quase 300 000 homens e são as mais poderosas da América Latina) montou uma estratégia de cerco nos departamentos do Meta e do Caquetá no âmbito do Plano Patriota, integrado no Plano Colômbia, concebido e redigido nos EUA.
Não obstante o Exército dispor de armas que o Pentágono somente fornece a Israel, o ambicioso projecto fracassou, tal como os anteriores. Nos últimos 12 meses as FARC infligiram pesadas perdas às tropas que as atacam. Em Agosto, os pedidos de demissão do general Ospina e de meia dúzia de generais foram interpretados por observadores internacionais como grave derrota da política de «segurança total» de Uribe, o mais fiel aliado dos EUA no Continente.
Os sequestros no estrangeiro de dois comandantes das FARC de grande prestígio – Simon Trinidad no Equador, e Rodrigo Granda na Venezuela – foram aliás criticados em Bogotá pela oposição legal como actos de terrorismo de Estado praticados por um governo que insiste em se apresentar como um campeão na luta contra o terrorismo. O primeiro, raptado em Quito com a participação da CIA, foi extraditado para os EUA como narcotraficante, acusação ridícula porque Simon Trinidad, doutorado em Harvard e membro de uma família riquíssima, era banqueiro quando aderiu às FARC. Rodrigo Granda – o responsável pelas relações internacionais das FARC – foi sequestrado em pleno centro de Caracas por polícias colombianos, em acto de pirataria que abalou as relações com a Venezuela.
Os dirigentes do CDS que hoje acusam o PCP de solidariedade com o terrorismo têm fraca memória ou são muito ignorantes.
Foi após insistente pressão dos EUA que a União Europeia colocou as FARC na lista de organizações terroristas, exigência que a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu se tinham negado a aceitar repetidas vezes.
Cabe recordar que há cinco anos, durante uma cerimónia em La Macarena, na selva amazónica, durante a entrega à Cruz Vermelha Internacional de militares colombianos libertados pelas FARC, os representantes do governo de Bogotá se dirigiam respeitosamente aos comandantes da organização revolucionária. Eu estava ali e vi os embaixadores ocidentais da Comissão Facilitadora a rodear Manuel Marulanda, tratando-o com a maior deferência.
Calúnia orquestrada pelos EUA
Foi por exigência de Washington que a trégua findou com a ocupação da Zona Desmilitarizada. E que aconteceu? Num golpe de teatro, o governo colombiano pôs a prémio as cabeças de Marulanda e dos demais membros do Secretariado das FARC, oferecendo milhões de dólares pela captura de revolucionários que passou a designar como assassinos e bandoleiros.
Para a legenda negra que envolve o nome das FARC na Europa muito contribue aliás a campanha de âmbito mundial que as apresenta como organização ligada ao narcotráfico.
A calúnia corre pelo mundo, funciona.
Como principiou?
Por iniciativa de um ex-embaixador dos EUA em Bogotá, Louis Stamb, o autor do slogan que, ao adquirir credibilidade, tem dificultado muito a solidariedade internacionalista com as FARC.
Stamb, homem da CIA, numa reunião no Pentágono, quando se discutia a necessidade de desacreditar as FARC, bateu com o punho na mesa e propôs:
- Vamos passar a chamar às FARC «a guerrilha do narcotráfico!»
Nas semanas que passei nas selvas do Caquetá e na cidade de San Vicente del Caguan tive a oportunidade de verificar que enquanto as FARC foram o poder real na Zona Desmilitarizada o consumo de droga era ali proibido.
Enquanto fabrica acusações falsas contra os revolucionários das FARC, o presidente Uribe (cúmplice do narcotráfico quando governador de Antioquia) amnistia e reintegra, com prebendas, na sociedade colombiana milhares de paramilitares, íntimos aliados dos cartéis da droga.
Os senhoritos do CDS receberam do PCP a resposta que mereciam.
Pessoalmente, sinto orgulho em ter artigos publicados na revista Resistência cuja presença na Festa do «Avante!», no stand do PC Colombiano, desencadeou o seu berreiro reaccionário.
Uma certeza: os nomes de Marulanda e dos comandantes das FARC serão recordados pelo tempo adiante como heróis da América Latina enquanto os dos dirigentes do CDS vão desaparecer na poeira da história.